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20 de Agosto de 2019

A promessa de "causa ganha" na advocacia

Prometer resultados não é o melhor caminho para a captação de clientes

Vitor Lima, Advogado
Publicado por Vitor Lima
ano passado

Não é tão difícil encontrar pessoas que relatam suas consultas jurídicas com profissionais que prometem a famosa "causa ganha", a certeza da vitória. Essa forma de atendimento não faz mal somente ao profissional, que por vezes terá necessidade de uma explicação bem convincente da não procedência do pedido, mas também à todos os seus colegas advogados, que lutam diariamente para alcançar a almejada vitória.

A promessa de certeza é feita muitas vezes para a captação máxima de clientes. O intuito de conseguir a assinatura no contrato de honorários já no primeiro instante, não permitindo espaços para dúvidas no atendimento quanto a vitória da causa.

De certo é que infelizmente haverá um momento onde o defensor contratado terá de comunicar o cliente sobre a não tão certeza de vitória assim. E garanto, não deve ser nada fácil, principalmente após a criação de expectativas exorbitantes; talvez o mesmo já contava até com a procedência da ação para realizar outras atividades conexas com o caso.

Infelizmente não há causa ganha no mundo jurídico!


Realizamos o estudo do caso de acordo com a legislação, jurisprudência majoritária, doutrina a favor, enunciados, mas ainda podemos acordar com uma “bela” publicação de improcedência da ação. Sim, injusto, mas é a realidade.

Mesmo em determinados casos mais simples, é inviável a promessa de resultado. E um dos fatores de grande importância é a segurança jurídica no Brasil; pois quem milita na área já entendeu que a segurança é uma grande utopia, longe de ter um fim. O entendimento de um juiz, turma, pode não ser o de outra, causando sempre uma incerteza, complicando nossa vida e dos nossos clientes, claro.

Como exemplo, tivemos uma recente decisão acerca da cessão de créditos (http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI282322,11049-Cessao+de+credito+pode+ser+feita+sem+notificacao+de+devedor), concordando que a cessão de crédito tem eficácia mesmo sem a notificação do devedor, contrariando o atual Código Civil. Trocando em miúdos, a dívida de uma loja por exemplo, pode ser cedida para empresas que ligam 10 vezes ao dia (o que já ocorre), sem notificar o devedor, e quando finalmente se torna possível o pagamento, não se sabe para quem pagar, mantendo o nome restrito nos órgãos.

Realmente complicada a insegurança jurídica brasileira, mas devemos nos atentar a uma afirmação que jamais poderá ser esquecida:

O advogado é um meio pelo qual o cidadão irá em busca de justiça através do direito, mas, não é o fim.

Vários fatores estão envolvidos entre ganhar ou perder e o mais incisivo será o entendimento do julgador. No cotidiano muitos escritórios estão em busca de clientes, fazendo de tudo para conseguir captar e aumentar sua carteira. Mas não se deixe enganar:

Não arrisque seu futuro com a famosa promessa de causa ganha!

Não há causa ganha e não podemos jamais afirmar isso tão-somente para segurar o futuro cliente. O atendimento com sinceridade e esclarecimento de todos os possíveis resultados evitam eventuais problemas com cobranças de resultados garantidos como certos por você!

“O outro advogado disse que era fácil, está tudo certo, já está ganho e um possível cliente te procurou? Certamente para ver se acha um precinho mais barato?”

Não caia no jogo, pois quem poderá futuramente cair é você.

84 Comentários

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Caro Vitor, infelizmente existem diversos advogados "picaretas" que de cada 10 palavras que dizem duas são causa ganha. Vejo diariamente "profissionais" apelarem para a certeza do êxito na ânsia de captar o cliente.

Mas, diferente do subtítulo escolhido, vejo que prometer resultado é não apenas o pior dos caminhos para conseguir clientes como é absolutamente antiético.

É certo que nós advogados temos o DEVER de informar nossos cliente de forma clara e inequívoca com relação aos riscos envolvidos e eventuais consequências que podem advir da demanda (art. 8º do Código de Ética e Disciplina da OAB).

Análise de risco/êxito é comumente realizado por escritório de advocacia e também por advogados autônomos (eu costumo fazer sempre, mesmo que de forma simplificada), tal estudo é extremamente válido e, na minha opinião, demonstra muito profissionalismo por parte do advogado.

Os clientes não gostam de ouvir que existe risco ou poucas chances de êxito na demanda que querem ou precisam propor, mas nos advogados temos dever ético de demonstrar o verdadeiro panorama da demanda a ser enfrentada, e, se possível, mostrar o entendimento jurisprudencial de casos semelhantes.

Muitos profissionais não estão preparados para negociar com o cliente, muitos [infelizmente] sequer tem noção do que realmente precisa ser feito em determinado tipo de ação que tentar vender para o cliente, e é justamente aí que mora o perigo, o medo de perder ou no desespero de fisgar o cliente o advogado solta a célebre frase: "isso aí é causa ganha!".

Como você já disse, mas sempre bom frisar, NÃO EXISTE ISSO DE CAUSA GANHA!!! Se um dia algum advogado disser isso fuja enquanto há tempo! rs

Pior do que o profissional que garante o ganho da causa e perde é o fato de que esse infeliz deturpa o nome de toda uma classe de profissionais que são em sua maioria sérios e trabalham dentro da estrita ética.

Esses adEvogados "causa ganha" fazem com que os clientes duvidem cada vez mais da integridade dos profissionais da advocacia, e duvidem também da seriedade da justiça, já tão desacreditada e com a imagem tão desgastadas em decorrência da exposição midiática de tribunais políticos (a exemplo do STF e TSE), que nada tem a ver com o dia a dia dos tribunais comuns.

Parabéns pelo texto e pela coragem de "cutucar a ferida" abordando um assunto tão sério e importante. continuar lendo

Realmente, a análise da demanda é o melhor a ser feito. E a transparência e sinceridade com o cliente.

Ainda bem que existem clientes que duvidam das promessas desses profissionais e criam uma maior confiança para quem lhe diz a verdade e todas as chances reais da ação.

Como você disse, esse "infeliz" além de colocar um fim na sua carreira, acaba com a nossa classe, aumentando a desconfiança da sociedade com os advogados.

Agradeço pelo comentário! continuar lendo

Esse assunto seria bem menos complexo caso invariavelmente não estivéssemos à merce do livre convencimento do juízo, quando não seguem a norma processual, as leis, a Constituição além das inúmeras jurisprudências inerentes a causa. Não sendo isso uma verdade o "instituto da causa ganha" seria apenas uma mera fantasia. continuar lendo

Vitor, verdade, atualmente os clientes estão mais espertos e alguns já passaram por situações que já os deixaram "escaldados", o que me preocupa é que existem muitas pessoas com pouca instrução ou sem noção de como a coisa de fato funciona e são levadas a engano, boa parte da sociedade costuma acreditar em tudo que fala o adv que se coloca a frente delas. A situação piora ainda mais quando o adv sugere, mesmo que nas entrelinhas, utilizar-se de influência, ou pseudo influência, para ganhar a causa, dizendo conhecer num sei quem, ser amigo do fulano, padrinho do filho do beltrano, complicado...
Mas nossa missão de fato é nos pautar na ética, sinceridade e na transparência com o cliente, como você bem disse.

Grande abraço! continuar lendo

Davi,
Para entrarmos em discussão sobre o livre conhecimento do juiz versus decisões corretas e bem fundamentadas precisaríamos de muito mais linhas do que permite a plataforma, ou então, precisaríamos de tempo e de algumas xícaras de café (melhor ainda se fossem algumas cervejas!), mas uma coisa que concordo com seu comentário e que ultimamente vejo muitas decisões contrárias ao código de processo.
Não sei o que está acontecendo, mas nunca tive que opor tantos embargos de declaração na vida, dispositivos sem qualquer margem para interpretação são simplesmente desconsiderados...a coisa tá feia mesmo!
Porém, entendo temerário pautar as decisões apenas na jurisprudência, tirando o livre convencimento do juiz, pois nosso grande desafio como advogados é demonstrar as especificidades do caso no qual atuamos, e, por vezes, requerer uma decisão contrária a jurisprudência, sendo esta a mais justa.
Abraço! continuar lendo

Murilo quando digo jurisprudência, leia-se "matéria esgotada". Caso fosse te contar os meus "causos" talvez duas caixas de cervejas não seriam suficientes. Estive recentemente em um seminário no TJRJ, quando da fala de um Ministro do STJ, expôs o seu descontentamento com os magistrados de um modo geral por várias razões, algumas até mesmo esdruxulas. Lamentavelmente, porém a vida segue.....
Abraços continuar lendo

Davi, entendo e compartilho seu descontentamento, nós que estamos no dia a dia da profissão sabemos como é ruim nos depararmos com decisões esdrúxulas proferidas em casos que atuamos, pior ainda é tentar explicar tais decisões aos clientes...
Cada dia que passa as decisões deixam mais a desejar, chovem recursos nos tribunais de justiça e regionais, porque as decisões de primeiro grau estão cada vez mais fracas de fundamentação, algumas nos dá a impressão de que o julgador sequer leu a ação.
Igualmente ocorre nos tribunais superiores, porém neste caso faço uma ressalva, muitos demandantes, principalmente grandes empresas que possuem "política" de recorrer até a última instância, utilizam de recursos aos tribunais superiores para ganhar tempo, protelando o cumprimento da sentença, por vezes recorrer mesmo sabendo de antemão que o recurso não será recepcionado. Mas, sim, concordo que é crescente [e alarmante] o volume de recursos resultantes da baixa qualidade das decisões, tanto no sentido técnico processual quanto no sentido fático dos detalhes envolvendo os casos.
Abraço! continuar lendo

O buraco é bem mais embaixo.
O maior problema, penso eu, é que o cliente só escuta o que quer.
Eu nunca, jamais, em meus 15 anos de experiência profissional, garanti um resultado.
E mesmo assim já fui acusado por clientes de ter oferecido essa "garantia" de resultado.
Depois de analisar um pouco, cheguei à conclusão de que garantir o resultado é sempre uma péssima ideia e concordo plenamente com o autor do artigo.
Mas também é essencial tomar muito cuidado com as expectativas do próprio cliente, porque ele vai ouvir o que quiser ouvir. continuar lendo

Além dele ouvir o que quer, algumas vezes vai escutar do primo, sobrinho, vizinho que a causa tem resultado garantido. Mas não vai escutar de nós a mais simples explicação.

Agradeço o comentário Itamar! continuar lendo

Bem observado. Estou no início da carreira e já percebi que é exatamente o que ocorre. Infelizmente muitos pensam que a carreira jurídica se apoia em uma "ciência" exata, mas sabemos que é algo bem distante disto. Parabéns ao autor, pelo texto, e ao colega, pelo comentário. continuar lendo

Verdade Itamar, nunca podemos nos esquecer do fator humano, que ouve e entende apenas o que lhe interessa.
Para tentar diminuir esse tipo de desgaste utilizo de um método simples, porém eficiente. Ao analisar a possibilidade de ingressar com uma ação, ou mesmo para defendê-lo em demanda já existente, sempre faço uma reunião e elaboro uma minuta contendo os principais pontos discutidos, sobretudo, os riscos envolvendo o caso. Faço o cliente assinar e lhe entrego uma via.
Fazendo isso os envolvidos no caso ficam resguardados, e o cliente não pode alegar que não foi avisado sobre algo.
Em casos mais complexos e/ou mais arriscados, é possível solicitar que o cliente assine a petição inicial/contestação, isso serve para que o próprio cliente de o seu "aval" sobre as informações contidas na peça. Situação que também resguarda o profissional, pois, nós advogados trabalhamos com a informação que cliente nos passa, e nós bem sabemos que por vezes a informação não é passada de forma completa, podendo ser distorcida. É horrível ser surpreendido, pior ainda em audiência, sobre algo que o cliente deveria ter informado antes e simplesmente ficou quieto. continuar lendo

Essa questão que o Murilo levantou é importantíssima e eu também já observei. Por incrível que pareça, é comum o cliente esconder informações ou mentir mesmo e sermos surpreendidos por algo que revele a verdade no decorrer do processo.
Já investiguei e até agora não consegui entender o que os leva a fazer isso.
Mas é muito comum, tão comum que um dia até ouvi de um colega advogado bem mais experiente que metade da verdade a gente descobre através do cliente e a outra metade descobre na audiência de instrução. continuar lendo

Infelizmente o que mais existe são advogados com essa conversa de "causa ganha". O grande problema é que a maioria das pessoas esta acostumada com essa conversinha furada. Já aconteceu de cliente ouvir de mim que havia risco de perder a ação e então ele disse: vou procurar então o Dr. Fulano, porque você não sabe nada, o Dr. Fulano disse que é "causa ganha".... continuar lendo

O que já aconteceu comigo de situações como essa!Abç continuar lendo

Que o Dr. Fulano consiga o êxito, pois ao contrário, terá muitas explicações para dar rs

Obrigado pelo comentário Rodrigo! continuar lendo

Rodrigo, já passei por situações semelhantes, é bem complicado.
Certa vez um cliente não apenas disse q o Dr. Fulano afirmou que era causa ganha como alegou que ele cobraria mais barato que eu. Eu não aguentei e falei tudo que penso sobre os "advogados causa ganha", e pra fechar com chave de ouro disse que manteria meus honorários, mas caso o adv causa ganha fizesse alguma cagada (o que era questão de tempo) meu preço dobraria, pois, como bem sabemos, é muito mais trabalhoso e por vezes quase impossível corrigir algo feito errado em uma ação judicial.
Ah...Isso quando o cliente não chega falando q consultou o "Dr. Google" e acha que entende tudo sobre o assunto..hahaha
Abraço! continuar lendo

A mais pura e dura realidade. Nunca deixo de expor os riscos e possibilidades da ação. A relação advogado x cliente há de ser, no mínimo, transparente. Esse é o pré-requisito mínimo para a valorização da classe. É nosso dever informar que prestamos um serviço técnico, colaboramos com a decisão final, mas, de qualquer modo, não somos quem de fato decide. continuar lendo

A transparência é essencial entre nós e a sociedade que não entende esse mundo complexo jurídico, que como disse, colaboramos 99%, mas 1% está nas mãos do julgador.

Obrigado pelo comentário João! continuar lendo